Desde que tenho a bicicleta de estrada que o S. Macário não me sai das ideias. Tinha que lá ir, custasse o que custasse. Era uma questão de voltar a andar com mais afinco e quando me desse o clique, passava ao ataque.
O clique acabou por aparecer há uns dias, mas da primeira vez furei (e a câmara suplente estava também furada) e fiquei por Sul, com o objectivo já a ameaçar! No passado domingo, dia marcado para nova tentativa, nem sequer cheguei a sair de casa, visto o pneu ter furado sozinho!
Hoje, dia 29 de Julho, foi dia de nova tentativa. Desta vez "bem sucedida".
Os preparativos correram como normal. Um bom almoço, com massa e tudo (à pro), bidons carregados com o pó de "perlim pim pim", dois pacotes de gel, mais um nougat, dez euros para o taxi (se fosse necessário, caso contrário seria para finos), pressão dos pneus ajustada, musicas carregadas no telemóvel e já está. Eram 16:30, mais coisa menos coisa, quando me fiz à estrada.
A primeira parte do percurso levaria-me até S. Felix, pela estrada nacional que liga Castro Daire a S. Pedro do Sul. Boa parte do percurso é feito em subida, mas nada de especial. Por precaução fui sempre a poupar todo e qualquer esforço.
Assim que começamos a descer para S. Pedro do Sul, vemos o S. Macário a aparecer pela direita. A foto que está em baixo não mostra a imponência e o respeito que a Serra do S. Macário mostra desde logo...

Chegando a S. Felix, viramos à direita e continuamos a descer... E o Hélio sempre a pensar que aqueles kms que sabiam tão bem a descer iriam, mais tarde ou mais cedo, sair do pêlo... Ou melhor, das pernas.
Ao chegar à aldeia de Sul o S. Macário mostra-se ainda mais imponente. Estamos neste momento na cota mais baixa da aproximação à subida e, mais uma vez, a foto não demonstra o quanto aquela visão mete respeito. A foto também não mostra, nem mesmo se formos ao local, o que nos espera, até porque olhando ao longe parece que o mais difícil será a aproximação final... Errado.
Mal passamos pelo centro da aldeia de Sul, continuamos na direcção do dito e.... Tal e qual como uma lambada nas fuças, assim que se sai do largo principal da aldeia, inicia-se desde logo a subida, mas de uma forma tão violenta que o que nos vem logo à cabeça é: "o que vale é que isto não deve ser sempre assim, porque se fosse..."
Rabo fora do selim, e siga em esforço.
A ajudar a esta ideia, passados uns quantos metros, a inclinação diminui e volta a permitir pedalar sentado. "Pronto, assim está bem... Uns picos intervalados por estas subidas dá para fazer. É muito duro, mas dá para fazer." Errado novamente.
Antes de continuar o meu relato, devo dizer que sou um ciclista fraquinho, que detesta subir mas que adora um bom desafio. Sou do género que nas provas de BTT, quando vão todos com ela à mão a dizer que não compensa o esforço, eu teimo em aguentar até à última. Em resumo, vou-me safando, mas não sou um trepador.
Antes de arrancar para isto, descobri que o pessoal que anda nas fininhas dizia que esta subida era muito dura. 9,4kms, com cerca de 9,5% de inclinação. Que era um calvário... Que era o inferno.
Ora, o que eu posso dizer agora é que bem me enganaram... Ao inferno já fui e não achei assim tão duro quanto isto.
Continuando o relato. Depois daqueles (poucos, muito poucos) metros com menor inclinação, e ao sair de Sul (reparem que ainda estamos dentro da mesma aldeia) voltamos a olhar um pouco mais directamente para Deus... E daqui para a frente é sempre pior.
Passamos por Aldeia e cada vez mais começamos a pensar na razão que nos levou a sair de casa.
Aqui ainda estamos na fase "infernal". A partir daqui fico sem classificação para o que passei.
Senti-me como Darwin quando descobriu a teoria da evolução das espécies, pois até hoje, sempre pensei que numa subida a pior parte era a curva em gancho e que, após esse gancho, a inclinação diminuía... Mais um erro.
Hoje descobri que, nesta subida (que continuo a colocar em causa a sua existência), se os ganchos são terríveis, a estrada ainda consegue inclinar mais depois deles.
Esta parte, que nos leva ao cruzamento para Macieira, leva-nos ao desespero, sendo que os 32 graus de temperatura, sem qualquer vento nem sombra, também não ajudavam.
Ao chegar ao parque de merendas o corpo quis desistir e eu fiz-lhe a vontade. É minha convicção que não é vergonha nenhuma fazer parte daquele calvário a pé... E eu fi-lo, por longos metros.
Nesta fase pensava que não ia chegar lá acima.
Só ao apanhar uma fonte, numa recta que deveria ser das piores, é que voltei a ter algum ânimo. E ao chegar ao cruzamento de Macieira voltei a pensar em virar à direita e abortar o resto da subida.
No entanto, e mesmo com uma placa a indicar um restaurante com o nome de "salva almas" (em baixo na foto), decidi continuar. Podia ser que melhorasse um pouco.
E melhorou... Não muito, mas melhorou. Pelo menos, a muito custo, já deu para pedalar até ao final, sem mais paragens. Mesmo assim, rampas como esta que mostro em baixo continuaram a martirizar as perninhas.

Mesmo assim, a escolha não se revelou nada fácil, atendendo à visão que tinha do mítico (em baixo) e do que faltava subir.

Ao chegar lá acima, já numa zona com feirantes e comes e bebes (amanhã começa a romaria anual) lembrei-me do que alguém escreveu no fórum ciclismo. Foi algo do género "o pior é que quando chegamos lá em cima e pensamos que o pior já passou, vem mais uma parede que nos leva aos últimos metros e à capela".
Dito e feito, olho em frente e, mais uma parede, com uns ganchos pelo meio, umas picadas, estrada ainda pior do que tinha tido até então mas, não sei como, lá fiz tudo em cima da burrinha.
Lá em cima, de copo de cerveja na mão e fartura na outra, pergunta-me um senhor se era a primeira vez que fazia aquilo. Respondi que sim e ele disse que eu estava com cara disso. Diz ele que é a cara típica de quem faz esta subida a primeira vez, mas que depois melhora um pouco com as seguintes... Duvido!
Fica o link para o track e as fotos do sports tracker, que podem aceder também pelo facebook das mulas em www.facebook.com/mulasdacooperativa
E um conselho... Aquilo não é para quem tenha juízo. O que tem lógica, porque diz o povo que vai ao S. Macário quem procura que ele lhe dê juízo. Agora já sei porquê!